terça-feira, 16 de junho de 2026

Arquivo de Sonhos

 

ARQUIVO DE SONHOS

Por Emídio Neto*


Estive no Cemitério Jardim da Saudade, em Ipiaú - Ba, no dia do sepultamento do corpo da Minha Tia Iracy. Um dia triste que se mistura a lembranças e saudades de momentos alegres. Mas também, um dia de memórias e reencontro com o passado de tantos parentes, amigos e pessoas conhecidas, cujos corpos estão naquele lugar.

Foto Arquivo: Entrada do Cemitério de Ipiaú Jardim da Saudade 1

Ali, encontram-se corpos de pessoas de todas as camadas sociais, times, partidos, profissões, raças, idades, gêneros e religiões. Nascidas em Ipiaú, outras cidades, regiões, estados e países. Em comum, mais do que o lugar onde agora se encontram, está o fato de que todos tinham sonhos.


Foto Arquivo: Túmulos logo na entrada do Cemitério a esquerda.

Naqueles túmulos, covas e gavetas, mais do que corpos consumidos ou em lento processo de decomposição, estão depositadas histórias e memórias. Um verdadeiro arquivo de sonhos.

 

 
Foto Arquivo: Placa Inaugural do Cemitério de Ipiaú 

Nosso Cemitério começou a ser construído em 11 de dezembro de 1931 e conclusão da obra 21 de abril de 1932. Ipiaú nem era município ainda. Em 1959, foi reformado pelo Lions Club, entidade que nem existe mais em Ipiaú. É um museu a céu aberto, em constante movimento. Seja por quem ali vai enterrar mais memórias e sonhos ou por quem comparece para prestar homenagens aos seus entes queridos.

Foto Arquivo: Túmulos no Cemitério Jardim da Saudade 1 - Ipiaú - Ba.

É também um espaço de pesquisa, visitas públicas e meditação. Um espaço para conhecer a história do município e suas transformações a partir da observação dos túmulos, epitáfios e adornos expostos.

Foto Arquivo: Arte Funerária no Cemitério de Ipiaú

Os cemitérios são espaços de preservação da memória coletiva e patrimônio cultural. Eles documentam a história, a arte funerária, as transformações urbanas e a estrutura social de uma comunidade ao longo do tempo.

Foto Arquivo: Grades para proteger o túmulo no Cemitério de Ipiaú

Por sua importância e relevância que transcende o valor capital e material, o cemitério deve ser protegido, conservado e preservado, para satisfação e orgulho da comunidade e sobretudo, em respeito àquelas pessoas cujos os corpos ali estão guardados.

A conservação dos cemitérios é vital para compreender a evolução das práticas culturais e garantir que a história de uma região não seja apagada

Lamentavelmente de alguns anos para cá, o nosso Jardim da Saudade, deixou de ser tratado como jardim e passou a ser tratado como depósito de entulho. O que ainda se verifica em seu estado atual, com aparência de completo abandono, túmulos quebrados, adornos arrancados, ausência de sinalização, caminhos mal cuidados, você não sabe se está andando em terra firme ou sobre alguma cova, “ervas daninhas” cobrindo alguns túmulos, túmulos com aspecto de sujeira e abandono...

Foto Arquivo: Visão geral do Cemitério de Ipiaú

Se não temos a consciência e a sensibilidade para compreendermos que os cemitérios são arquivos a céu aberto, com valor histórico inestimável. Territórios de memória, que abrigam a história local de forma sensível, simbólica e permanente. E que valorizar esses espaços é reconhecer que a cultura, a identidade e as raízes de uma cidade também vivem ali — entre lembranças, homenagens e o silêncio que fala por si.

Foto Arquivo: Visão geral do Cemitério de Ipiaú

Então continuaremos permitindo o abandono e a degradação do nosso Jardim da Saudade e passando a péssima mensagem e exemplo para nossos filhos de que "morreu... acabou". "Enterrou, caiu no esquecimento".

Foto Arquivo: Verticalização do Cemitério de Ipiaú

Um município que se quer turístico e que tenta se projetar com o lema de "cidade sustentável". Não pode ter milhões apenas para festejos juninos. Deve ter responsabilidade e compromisso com a preservação, conservação e proteção dos Cemitérios, em especial, do mais antigo que já encontra-se em situação crítica.

Ao caminhar por um cemitério, é possível perceber que aquele espaço vai além da dor e da saudade. Os cemitérios são, antes de tudo, lugares de memória — e, por isso, desempenham um papel fundamental na preservação da história local.

É urgente que a Prefeitura de Ipiaú dedique recursos e se empenhe em conservar o cemitério, não apenas mantendo a limpeza e organização, mas garantindo a preservação da história viva da comunidade. Realizando ações como digitalização de registros, sinalização histórica, restauração de túmulos antigos e incentivo à visitação consciente, ajudando assim a transformar o nosso Jardim da Saudade em ponto de conexão entre o passado e o presente.

Foto Arquivo: Visão geral do Cemitério de Ipiaú

O Cemitério Jardim da Saudade 1, precisa urgentemente de um projeto de recuperação, restauração e revitalização. O que passa pela necessidade de transferir corpos e restos mortais para o outro Cemitério (processo conhecido como trasladação), devido a visível falta de planejamento do uso e ocupação do espaço, com aparente desordem e sobreposição de covas, túmulos e caminhos. Nossos entes queridos e nossas famílias não merecem tanto desrespeito.

Vale lembrar que as famílias também têm responsabilidades para com a manutenção, conservação e limpeza dos túmulos. Mas, a Prefeitura desenvolve algum trabalho de educação e informação quanto a isso ? Notifica e multa as famílias que abandonam os túmulos etc ? Cuidar do patrimônio histórico, material e imaterial é dever de todos nós.

Registro que quem não respeita o passado, desvaloriza o presente e destrói o futuro. Abandonar o Cemitério a ação do tempo e daqueles que o destroem, seja por estupidez, perversidade, furto ou omissão, é desrespeitar a história e memória de todos quantos contribuíram para a construção e formação do nosso município, nossa cidade, nossa história, nossas famílias.


*Emídio Souza Barreto Neto é poeta, ambientalista, fundador do Grupo Ecológico Humanista PAPAMEL, Técnico em Agropecuária, Historiador, fundador do Blog Historia Ambiental de Ipiaú, autor e coordenador da pesquisa Espaços Culturais de Ipiaú: Ontem e Hoje, pós-graduando em Educação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável.

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